O Rio de
Janeiro, a Cidade Maravilhosa, há tempos se tornou uma Cidade
Partida.
Atualmente, a forma mais simples e direta de descrevê-la é: Rio de Janeiro, Cidade Vendida.
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A face humana do Rio: o Centro da cidade visto do Morro dos Prazeres. Foto Guina Araújo Ramos, 2014 |
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No Rio, sinal verde para os pedágios e outras concessões. Foto Guina Araújo Ramos, 2014 |
Foi assim
que a cidade do Rio de Janeiro (e sua região metropolitana), muito bem embalada
pela própria natureza, tornou-se produto em oferta global, mercadoria de luxo na
vitrine do mundo, pastiche tropical de uma Barcelona idealizada pelos interesses...
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Baía da Guanabara e Piscinão de Ramos
Foto Mário Moscatelli/olhoverde - Fev/2014
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A ironia é
que uma venda pode atrapalhar outra... A situação das lagoas e da baía da
Guanabara é deprimente, como toda hora demonstra o biólogo Mario Moscatelli, em
suas severas denúncias, e isto porque, como ele diz, há um tipo de
venda, no Rio de Janeiro, que é uma “indústria da degradação”,
através de “empréstimos bilionários onde, sem
fiscalização e com a prevaricação comendo solta, o dinheiro serve para tudo,
menos para o que veio emprestado”. E, mesmo assim, não é que venderam o Rio de Janeiro como
o local ideal para os Jogos Olímpicos de 2016, com “todos os esportes em uma
cidade só”, inclusive os náuticos nas águas poluídas da baía da Guanabara?...
Temos, aqui no
Rio, o falsamente ingênuo “método patético” do governo municipal de Paes (que reinventa o caos) e a
ardilosa estratégia de fragmentação metropolitana do governo estadual de Cabral (que está na raiz dos protestos). São dinâmicas
capitaneadas por políticos que, embora com índices de popularidade no fundo do
poço, continuam no alto de seus cargos, insistindo nos projetos de seus
patrocinadores, sem risco de impedimento por parte dos cooptados legislativos e
judiciários locais.
Esta
resiliência dos poderosos da vez parece não ser afetada pela grita generalizada
das manifestações de rua, nem pelas críticas diretas dos comentaristas
abalizados, e há muitos exemplos disso.
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Panamá City, prédios no Centro - Foto Guina Araújo Ramos, 2014 |
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Reprodução do Facebook |
Outros amigos de consciência urbanística participam desta reflexão coletiva. E, no entanto, nada muda...
Louvo a cotidiana crítica, que sustenta
uma possível esperança, mas fico imaginando (e me arrepio!) como as coisas
ficarão, no Rio e no mundo, se tudo continuar como está...
Sendo o futuro um horizonte de possibilidades, publiquei algumas suposições no conto “Memórias Póstumas do Rio de Janeiro”
(pedindo a bênção ao premonitório Machado de Assis), do livro “2112 ...é o fim!” (encontre-o aqui), que deixo como estímulo à reflexão de quem não quer fechar os olhos para
o que virá:
“Eis que uma onda internacional se
espalha pelo país: acontece a Copa!... Pena que certas ondas sejam assim
nebulosas... Também teve o tempo, apertando o clima, o verão se espalhando por todo
o ano. E perdas pesadas, em roubos de monta, em ganhos espertos. A chapa cada
vez mais quente. Armações em telas, mais fortes que redes. Eu, tudo dominado,
rendido, perdi...”
(...)
(...)
“A Olimpíada durou nada, não mais que
uns dias. Talvez tenha me faltado saco para seguir todas as bolas. Ou não haja
mesmo espírito esportivo que aguente tal variedade de desperdício de tempo...
Valeu para uns, e também nisso não há novidades. Ganharam mais, do ouro,
empreiteiras, construtoras, imobiliárias... Da prata, seus políticos
particulares, em lançamentos secretos. Do bronze, quem foi à praia e não deu a
ela a menor bola...”
(...)
(...)
“Dei-me conta de que, de pedra a
concreto, mudaram as arcadas da boca banguela da baía da Guanabara (já a
aparência, em nada), esta ranzinzice de Lévi-Strauss, por Caetano, em música,
relembrada. Além dos pontos que louva, Pão de Açúcar, Corcovado, agora eu tinha
implantes, uma protética arquitetura de isolados prédios em terrenos de ponta,
que me foram espetados, os Towers & Trades & Trumps, monumentais dentes
artificiais a me morder a histórica paisagem.”
E, se a
coisa continuar assim, por aí afora e adiante, parece mesmo que para o Rio, Cidade Vendida, se
não antes, “2112 ...é o fim!”...