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domingo, 7 de junho de 2015

08. O Rio de Janeiro continua à venda!


Até os mais fanáticos por competições esportivas ou por revitalizações urbanas já perceberam: há alguma coisa de muito mal cheirosa no esforço da Prefeitura de entupir o Rio de Janeiro de obras "maravilhosas"...


No Porto Maravilha, enquanto as moradias desaparecem, apenas alguns espigões (talvez felizmente) estão subindo, as mudanças no sistema viário pioram a mobilidade geral e falta previsão de transporte coletivo para a área, a não ser para os turistas do futuro bondinho do VLT. Já o governo estadual (não) faz a sua parte: se a expansão do Metrô é fim de linha, as barcas novas não cabem nas docas nem se expandem nas rotas. E paira sobre eles o governo federal, padrinho das jogadas dominantes da cidade, que, apesar das traições, continua passando a mão nas cabeças dos responsáveis.  
 
A Prefeitura do Rio destrói Vila Autódromo - Foto: Guina Araújo Ramos, 2015
Pior do que a incompetência suspeita das obras, muitas realizadas pelo método patético, são os escusos interesses que, por baixo dos panos da cobertura midiática, comandam as ações de urbanização e de mobilidade no Rio de Janeiro impostas aos cariocas desorientados, ancoradas numa forçada urgência da aproximação das Olimpíadas.


Talvez o aspecto mais cruel dessas ações, algumas praticamente insanas, tenha sido o retorno, com as desculpas de praxe, às políticas de remoção de comunidades (favelas ou não), sempre com consequências dramáticas para o povo, mas do mais alto interesse para a chamada "especulação imobiliária". Poderíamos até, se fosse ficção e não pura realidade, imaginar um filme, "O Ataque do Bicho Papão (de Imóveis)"...


Tome-se como exemplo o drama de Vila Autódromo.  Até o Rio se render ao "padrão FIFA", o lugar não passava de um minibairro de Jacarepaguá, com pouco mais de 500 famílias, oriunda de pescadores, entre outros trabalhadores, que se instalaram na foz do canal Pavuninha, à beira da lagoa de Jacarepaguá, em terra pertencente ao Estado e ainda não “grilada” por especuladores imobiliários, coisa tão comum na Barra da Tijuca... 
Não passava de um detalhe humano na Baixada de Jacarepaguá, área de restingas e lagoas, uma espécie de “Pantanal carioca” isolado da parte urbanizada da cidade por montanhas e florestas.


Nos anos 1970, ao lado da comunidade construíram um autódromo, o qual, apesar de cuidadosamente fechado por alto muro, demandava serviços e até lhe deu nome: Vila Autódromo. Nas três décadas seguintes, com a cidade se espalhando para a região, com avenidas, prédios, shoppings etc, ganhou ruas definidas, comércio e igrejas etc, mas sem tráfico nem milícias... Nas décadas seguintes, governos sensíveis às carências populares concederam a seus moradores a posse dos terrenos, e por 99 anos!… Aliás, há muito tempo o local foi definido, pela própria Prefeitura do Rio de Janeiro, como Área de Especial Interesse Social, o que significa que deve ser ocupado predominantemente por habitação de população de baixa renda.


Parque Olímpico invade V. Autódromo - Foto: Guina Araújo Ramos, 2015

No século XXI, o Rio de Janeiro entra no circuito dos Mega Eventos. O Pan-Americano foi apenas uma ameaça, a Copa do Mundo não chegou perto, mas as Olimpíadas vieram... 

A princípio, parecia que Vila Autódromo não seria prejudicada, foi respeitada pelo projeto vencedor da construção do Parque Olímpico. 

Porém, por trás dos Jogos e abençoado pelo grupo político que governa o Rio de Janeiro ("Olimpíadas serve para fazer qualquer coisa", chegou a dizer o prefeito), vieram os interesses imobiliários. 
Vila Autódromo foi incluída na área a ser entregue às construtoras, parte do generoso pagamento pelas obras do Parque Olímpico, transformando paz em tragédia, o mesmo "pacote imobiliário" que atingiu o ex-Autódromo:

"Hoje o espaço pertence ao Consórcio Rio Mais. Isto aconteceu num passe de mágica, através de uma PPP (Parceria Público Privada) espúria onde a Prefeitura do Rio concedeu o uso do que não era dela, mas sim do Estado do Rio de Janeiro, ao tal Consórcio. Tudo isto em troca apenas das obras de infraestrutura do mencionado Parque. (...) Formado pelas construtoras Andrade Gutierrez, Odebrecht e Carvalho Hosken, este consórcio, no fundo, pretende fazer do local uma cidade para poucos." (in O que é o Consórcio Rio Mais)


As Olimpíadas se aproximam, o negócio está feito, é preciso entregar o combinado: as empreiteiras querem os altos lucros da construção de condomínios para a classe média. 

Vila Autódromo resiste! - Foto: Guina Araújo Ramos, 2015
Contra este poder, Vila Autódromo tem apenas o direito dos seus moradores àquele pedaço de terra. Da luta dos moradores, resultou a elaboração do Plano Popular de Vila Autódromo, com apoio técnico de universidades públicas (UFF e UFRJ), uma proposta alternativa de urbanização, muito mais barata do que as remoções. Um projeto com qualidade suficiente para ganhar, entre 170 candidatos, o Urban Age Award 2013, patrocinado pelo Deutsch Bank e prestigiado pela London School of Economics, um prêmio totalmente desconsiderado pela Prefeitura (seria entregue no Palácio da Cidade, mas cancelaram o evento...). 


Vive-se no Rio de Janeiro a "microditadura" das irmandades e/ou famílias locais, que dominam mais que quatro poderes... Insuflado pelas cobranças da mídia, que lhe é parceira (mas também das empreiteiras), o Prefeito Eduardo Paes, afrontando até a Constituição, as decisões judiciais e a opinião pública, mantém sua ação brutal (com assédio, astúcia ou violência) no sentido de forçar a remoção completa da comunidade. Assim, conseguiu que uma parte se mudasse para apartamentos (que foram, na verdade, comprados) de um novo conjunto residencial ali perto, que já tem problemas, por má qualidade de construção; e que outros aceitassem indenizações, na maioria insuficientes (exceto as dos negociantes da área). Apesar dessas manobras da Prefeitura, um grupo de cerca de 170 famílias, dentre as mais de 500 originais, continua resistindo e pretende permanecer, o que é direito seu.


Vila Autódromo: "Nem todos têm um preço!" - Foto: Guina Araújo Ramos, 2015

"O povo que se dane!", parece ser o lema... 
Outros diriam: "É o dinheiro, otário!"... 
Afinal, o negócio é de alto nível: políticos interessados na venda da cidade, empresas buscando faturar o máximo, esquemas internacionais explorando paixões esportivas… E na outra ponta, no lado que dói, algumas dezenas de famílias, que apenas querem continuar a viver sua vida, criar seus filhos no lugar onde cresceram.


Nas fotos, o convívio amargo dos moradores de Vila Autódromo com a destruição cotidiana, vinda justamente das autoridades que deveriam protegê-los… 





E o grito lancinante da sua resistência, expresso em pichações nas ruínas dos lares destruídos pela Prefeitura do Rio de Janeiro, esta cidade duvidosamente olímpica… 




Apesar de tudo, Vila Autódromo vive!
 
 
Fotos: Guina Araújo Ramos, 2015

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

06. Niterói perde a vista, e perde a prazo...



As esferas políticas e econômicas se intercomunicam, são construções humanas...
Os humanos das grandes empresas, com ajuda de políticos de confiança, descobriram a expansão das cidades como vantajoso negócio. No Brasil, a onda de recuperação de frentes marítimas ou fluviais (“waterfronts”), com evidente inspiração estrangeira, tornou-se vagalhão... A toda hora, empresas ardilosas e arquitetos escolados arrotam Baltimore e Barcelona sobre os subdesenvolvidos habitantes deste país de extenso litoral...

Prédio de 40 andares e a cidade tradicional
Rua da Assembléia, 10 – Rio de Janeiro, 2013
Desavisados das intenções esconsas e iludidos por imagens dinâmicas, nós, subalternos culturais, nos apaixonamos à primeira vista pelos projetos... Com sutis estímulos e módicas colaborações, legisladores locais aprovam flexíveis leis que criam Cepacs, moeda mágico-financeira para a venda de novos espaços construtivos nos mesmos lugares onde, antes, podia-se construir muito menos...
Assim, através da surpresa e da propaganda, surgiu no Rio o Porto “Maravilha”, um verdadeiro castelo de Cepacs... Propôs, como se fosse de todo bom, a construção de dezenas de prédios com até 50 andares. E também cortes profundos, de remoções teleféricas no antigo morro da Favela (“civilizado” com o nome de morro da Providência) ao bota-abaixo de vias urbanas, com implosivo destaque para o elevado da Perimetral, a ser substituído (sem ganho expressivo de mobilidade) por túneis e avenidas. 
Sempre a prioridade para o transporte individual (nada de Metrô na área), mais um dos excessos urbanos capitaneado pela dupla que, toda hora, “volta atrás”... Quem sabe, com a manifestação dos cariocas, não voltem atrás em relação à derrubada da Perimetral?...

Araribóia, fundador de Niterói e defensor do Rio de Janeiro:
em seu lugar podem ser construídos 2 prédios de 40 andares...

Pois, muito pior do que esta imitação (que sai cara) é a imitação barata que terá custo alto!... Do outro lado da baía, um seu (deles) pupilo tenta emplacar uma Operação Urbana Consorciada, a OUC-Centro de Niterói, uma versão do Porto “Maravilha”, adaptação de versão proposta ao governo anterior, que seria a salvação da pátria temiminó, a tribo de Araribóia...

O projeto, oferecido a vários candidatos a prefeito (antes da eleição de 2012) por construtoras nacionais (Odebrecht, OAS e Andrade Gutiérrez) e defendido por arquiteta formada em Barcelona, parece mais uma invasão extraterrestre...
Comparação entre a situação atual e o projeto da OUC Centro Niterói
Desconsidera o estímulo ao crescimento orgânico do Centro (como incentivos aos moradores e comerciantes locais), enquanto veste uma fantasia ambiental (jardins vagamente assemelhados ao Aterro do Flamengo, marina pública, vila comercial de pescadores). Quando vai ao ponto, introduz o que realmente doerá na pele (e na vida) dos niteroiense: a descarada criação de espaços de especulação imobiliária, da mais alta lucratividade para as empresas proponentes. Não casualmente, as maiores financiadoras das campanhas políticas de quase todos os candidatos da última eleição municipal, com destaque para o atual prefeito.
É grande a indiferença (como aconteceu, a princípio, no Rio), mas críticas coerentes logo surgiram, por entidades e profissionais ligados a questões urbanísticas e pelo Ministério Público (que foi à Justiça), todos pedindo, até que se faça a atualização do Plano Diretor da cidade (defasado há mais de 10 anos), a retirada do Projeto de Lei da Câmara dos Vereadores

Perfil previsto para o Centro de Niterói, visto da baía.

Projeção do Projeto OUC em Audiência Pública, Agosto/2013
Anúncio vende a vista e o prédio...

A proposta é de tal modo alienígena e invasiva que até setores do mercado imobiliário, como a Ademi local, juntaram-se aos protestos, quando não tentam outras formas de “escapar à invasão”...  Recentemente, foi posto à venda um prédio situado bem em frente à estação das barcas e o anúncio apregoa a vista que se tem “da janela para fora”. Uma evidente tentativa de se livrar de um futuro “mico”, porque o projeto da OUC permite, além dos mais de 15 (quinze) prédios de até 20 (vinte) andares entre o Caminho Niemeyer e a área antiga da cidade, a construção exatamente neste lugar (justo onde hoje está a estátua de Araribóia...) de dois prédios de até 40 andares!...  

Entre tantos (que a discussão promete ir longe), dois pontos podem ser destacados:
1) passam pelo Centro de Niterói cerca de 500.000 pessoas por dia, ou seja, tantas pessoas quanto são os habitantes de toda a cidade!...
Este projeto não desenvolverá o Centro de forma harmônica, orgânica, com a integração destas pessoas. A consequência mais geral, a médio prazo, será a expulsão de moradores e de comerciantes de baixa renda, o que chamam de “gentrificação”, entre outros malfeitos...
Para o Fórum UFF Cidades, é baseado na “atração do grande capital imobiliário, que expulsará a população e as atividades tradicionais”. Em seu lugar, a proposta, explicaRegina Bienenstein, da Arquitetura-UFF, é ampliar “a melhoria dos serviços urbanos; o estímulo ao aproveitamento dos imóveis vazios e subutilizados como moradia popular e de classe média; a organização do dinâmico comércio popular; a valorização do comércio já presente na área e o incentivo à recuperação do patrimônio edificado”;

2) o trecho do Caminho Niemeyer em frente ao Centro (construído em área parcialmente aterrada, há décadas, para fins de especulação imobiliária) realmente precisa ser valorizado.
Caminho Niemeyer - Teatro Popular - Junho/2013
A sua referência, ainda que vaga, é o Aterro do Flamengo, cujo projeto, sabiamente, dispensou prédios de muitos andares e em grande quantidade... Decisão que valorizou progressivamente as construções e os bairros circundantes, dando à cidade do Rio de Janeiro um espaço que a prestigia cultural e economicamente. Sem prédios gigantescos e com equipamentos de uso público, a OUC do Centro de Niterói poderá engrandecer a cidade (se seus governantes perceberam a riqueza desta opção), deixando de ser uma proposta meramente interesseira.

Em suma, a humanidade cresce e a cidades mudam, precisam mudar...
As cidades pertencem aos seus habitantes e todos, a cidade e as pessoas, devem crescer em consonância. Não podem ser tratadas como mercadorias, tendo como parâmetro apenas o dinheiro e o lucro de alguns.
Governantes que aceitam agir desta maneira, privilegiando interesses econômicos mesquinhos em troca de favores circunstanciais, estão roubando do cidadão e da cidade o seu futuro.