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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

23. Problemas autopropelidos

Embarque de 2 rodas - Foto: Guina Araújo Ramos, 2026

As contradições da vida urbana continuam provocando, em mim e em muitos, muitos arrepios...
Agora, por exemplo, é em duas rodas que a confusão, meio que auto propelida, anda trafegando.
Auto propelido em duas rodas era, até há pouco, o popular e esforçado ciclista a circular, à custa de músculos e suor, em sua bicicleta, fora nós, os pedestres.
Nesse não tão distante tempo, o veículo de transporte em duas rodas que podia ser classificado como “autopropelido” (porém abastecido por combustíveis fósseis) era a icônica motocicleta, a histórica e popular “motoca”.
Eis que avança a tecnologia e vai fazendo inserções desorientadoras entre uma coisa e outra. Surgem a bicicleta elétrica e a "motoca" compacta (ou algo assim, que é muito variada a oferta de modelos). Então, hoje temos os velozes autopropelidos ameaçando pedestres nas calçadas, as elegantes motonetas (ou “scooters) com seus (em geral, suas) impassíveis comandantes (e compras ou crianças numa cesta) e os agitados ciclomotores ("bicicletas com motorzinho", me diz a IA) a se meterem na contramão dos carros. Enquanto isso, as saudáveis e lentas bicicletas, pedaladas por entregadores de tudo e qualquer coisa, continuam a se espremer nas ruas, se arriscando entre os ônibus e as calçadas...
Essa profusão de soluções de transporte motorizado em duas rodas, que virou coqueluche entre os adolescentes abonados (e descuidados), até já prejudica os ativistas do ciclismo na hora de argumentar que andar de bicicleta é exercício saudável, melhor do que se enfurnar num ônibus: hoje em dia o ciclista nem precisa mais pedalar!...
Vai daí que surgiu mais um conflito entre transporte individual e coletivo, agora sobre as águas da Baía da Guanabara. Já que se podia levar a bicicleta na barca Rio-Niterói e continuar pedalando do outro lado, o autoempoderado dono do modernoso autopropelido concluiu que podia fazer o mesmo. Pronto: de repente a barca estava entupida de veículos de duas rodas a disputar lugar com os seres de duas pernas!
Acontece que viagem individual entre as duas cidades (grupos em canoas havaianas não vale!...) só mesmo pela ponte Rio-Niterói, de carro ou de moto (de ônibus, já é coletivo...). E atravessar a ponte nestes bonitinhos mas frágeis “duas rodas” beira o suicídio... Aí, observador neutro que sou (dado que, para sobreviver ao trânsito de Botafogo, vendi minha última “baique” para o porteiro do prédio, por R$50, lá pelos anos 90) entrei em “modo nostalgia”: me lembrei da travessia da baía nas antigas barcas para veículos!... Era criança, curtia: o motorista estacionava o carro na balsa e apenas apreciava a paisagem, o sol, o vento, a chuva, a atração do momento. Só que não se tem mais paciência para um passeio tão lento...
Os 2 rodas no pátio da escola - Foto: Guina Araújo Ramos, 2026

Então, antes que eu sofra um acidente no trânsito das palavras, vou esperar por (e assistir às) devidas soluções que os especialistas hão de inventar, se é que hão...
Sei não. Parece que estão sendo desorientados, quase atropelados por soluções tecnológicas individualistas aplicadas (e espalhadas), sem freio, pelo mundo a fora, e cidades a dentro.
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# 23 da série Arrepios Urbanos
Fotos: 1. fila de duas rodas nas Barcas da Praça XV
2. Pátio de escola de nível médio em Icaraí, Niterói.


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

15. Niterói, Capital Brasileira da Desigualdade?

Niterói é o que se vê no universo do noticiário: uma cascata. 

Favela Castro Alves, Fonseca, 2018
Uma cascata que desce dos píncaros da elite juridicamente protegida às margens das praias da Baía da Guanabara para se espalhar pelas vantagens da classe média dos jardins de Icaraí, São Francisco e algumas outras ilhotas oceânicas de conforto em um mar de desigualdades. Do remanso protegido da classe média, que se incomoda com engarrafamentos e a vizinhança da multiplicação da especulação imobiliária, a cascata se dilui pelo interior da cidade, pelo mar de morros dos subúrbios escondidos, pelas vielas e ladeiras das favelas, de Ititioca ao Jacaré, de Jurujuba a Caramujo, nas escadarias das "comunidades" (como a do Castro Alves, no Fonseca), nas beiradas da cidade onde sobrevive o povo que a constrói e que a sustenta enquanto os governos muito mal a preservam.

Apesar da falsa capa da prosperidade que lhe é dada pelo dinheiro desperdiçado dos royalties do petróleo, Niterói é uma cidade com alto grau de desigualdade, basta sair da beira das praias... A grande maioria dos habitantes de Niterói precisa de serviços públicos de qualidade e de que lhe atendam os direitos básicos, em educação, saúde, habitação, e não da cooptação visando resultados eleitorais nem de obras de "embelezamento" superficial.

Segregação racial: EUA x Brasil
Apesar dos paliativos e do marketing como política de governo, que supostamente tornaria mais justa a cidade, a situação da distribuição racial, social e econômica em Niterói não muda há décadas. Segundo a Brown University e o IBGE, conforme matéria da revista Nexus, a cidade de Niterói tem o maior "índice de dissimilaridade" (ou seja, de desigualdade) do Brasil, conforme o quadro que publicam.


O Mapa Interativo de Distribuição Racial no Brasil (baseado nas autodeclarações do Censo) mostra, nessa questão, em Niterói, diferenciações geográficas radicais (população branca, em azul; negros e pardos, em amarelo e verde). Há áreas com população quase 100% branca, com Ingá, Icaraí e São Francisco em destaque, e há trechos de predominância total de negros e pardos, que correspondem aos morros cobertos por favelas, com destaque para o Cavalão, exatamente ao lado de Icaraí, e ao morro do Estado, entre o Centro e Icaraí.

Mapa racial de Niterói - IBGE, 2010

Esta geografia sócio racial é mortal, pelo menos para os negros e favelados. O jornal El País apresenta o drama numa matéria sobre a segregação racial na cidade, e os dados são cruéis: Em Niterói, 60% de todas as mortes violentas ocorridas em 2019 foram cometidas por agentes policiais do Estado do Rio. De todas as vítimas da polícia, 88% eram negras, de acordo com os dados do Instituto de Segurança Pública analisados pela Casa Fluminense. O percentual chega a ser maior que em todo o Brasil (75,4%), na região metropolitana do Rio (79%) e na capital Rio de Janeiro (81%). Em números absolutos: a polícia matou 125 pessoas no ano passado em Niterói; 110 eram negras.

Ainda assim, há quem pense que, comparado ao Rio de Janeiro, Niterói seja uma "cidade-sorriso", como diz a propaganda da prefeitura.

Será que os moradores das 120 favelas da cidade, cerca de 40.000 famílias, segundo dados do Boletim ONU/NEPHU-UFF (já, em 2020, segundo a própria Prefeitura, 204 favelas), ou seja, mais de 150.000 pessoas, quase um terço da população, diriam que vivem em uma cidade feliz ou que estão felizes na cidade?... 

Casa de pau a pique, Morro do Arroz - Niterói, 2016


Simplesmente continuam vivendo do mesmo jeito que viviam nos anos 1980. Ainda há casas de pau a pique no morro do Arroz, favela do complexo do Morro do Estado, a pouco mais de um quilômetro da sede da Prefeitura, tanto por dificuldade de acesso de material de construção pela estreita escada disponível, e também por mera pobreza.


A miséria nas ruas de Niterói

Casa e trabalho - Jardim Icaraí, 2019 (do blog Brasil na Miséria)
também é uma marca registrada da cidade, enquanto o dinheiro é gasto em obras espetaculares. Antes da pandemia, apenas caminhando pelas ruas do Centro e dos bairros mais ricos, não era difícil encontrar moradores e trabalhadores de rua, verdadeiros precursores dos home offices pandêmicos, de quando em vez defenestrados desses lugares pela repressão armada para atender a armações midiáticas.





Prédio do Conjunto Zilda Arns, 2016
Enquanto isso, as propagandas eleitorais nas favelas são as mesmas das campanhas anteriores, e nada muda... A menos que haja uma tragédia ambiental, o que, por mais que traumatize a opinião pública, não garante atendimento de qualidade às vítimas. Que o digam os desabrigados do Morro do Bumba e adjacências, que levaram cerca de cinco anos para serem alojados no conjunto residencial Zilda Arns, cuja construção é de tão baixa qualidade que dois prédios tiveram que ser derrubados antes de ficarem prontos! 

E os que restaram não estão em condições muito melhores...  



 

Niterói, com o tempo, talvez se transforme em uma onda...

Uma onda que virá lá do fundo do território, do chão inseguro do município, da base de um oceano de gente, uma onda que virá com toda força porque virá de um povo comprimido, uma onda que crescerá e tomará fôlego nos bairros intermediários, pela consciência que a classe média ganha enquanto se muda de residências agradáveis para prédios encaixotados, e daí essa onda crescerá até a crista poderosa que se coloca frente à baía, e é aí que se verá a espuma poluída dos poderosos, da elite que se auto-privilegiou ao tirar os ganhos do trabalho que vem do povo, uma crista que se tornou uma crosta, pela posição desequilibrada que assumiu na sociedade, e cairá desta crista em estrondosa derrota de ideias, de vontades e de poderes.

Casarão da Pres. Domiciano (esquina de R. Antônio Parreiras) - São Domingos.

Niterói não será para sempre um relicário de joias arquitetônicas que iludem a percepção do que se tem a ver. 

Niterói terá que se tornar mais justa, tão rápido quanto possível, ou não resistirá às contradições que ela própria cria.

É amargo o sorriso dessa cidade: Niterói sorri enquanto mata. 

[Fotos e texto: Guina Araújo Ramos]

Atualizado em 01/08/2021. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

14. A Esfinge do Brasil


          A figura que há poucas semanas "descobri", fotografei e divulguei, e que interpretei, a princípio, como sendo um "leão" ancorado em plena Baía da Guanabara, plantado pela Natureza, eis que percebo, de repente, agora, neste 29/10/2018, dia encharcado de ressaca eleitoral em todo o pais e de ressaca marítima no litoral carioca, eis que noto, ao circular pela Praia de Icaraí nesta manhã mais invernal do que primaveril, eis que me aparece não mais como um leão majestoso e inesperado, mas como uma esfinge (por segurança, talvez, com a cabeça disfarçada por uma máscara de leão), a própria Esfinge do Brasil.
Esfinge do Brasil - foto de Guina Araújo Ramos, 2018
          Sim, é uma forma de presença (a partir de então) mitológica, uma condensação imagética da perplexidade, racional ou não, consciente ou não, que dominou as mentes dos brasileiros ao final (ou afinal) e ao cabo (ou capitão) desta eleição nacional, com seu resultado associado à esfinge pela própria imprensa, eleição regulada a golpes de poder econômico e de subterfúgios psicológicos, a golpes impostos ao povo brasileiro por meios jurídicos e meios digitais, atos inconfessáveis por quem os praticou e incompreensíveis (mas eficientes) para quem os recebeu.
          Passo então a entender que esta pequena ilha do litoral de Niterói, a Ilha dos Cardos, já se apresentava todo este tempo, para mim e para os que a conheceram através do blog Arrepios Urbanos, ainda que de forma sutil, visualmente, como a Esfinge Brasileira, este ser inquestionável (porque é imaginário) que questiona (porque é necessário) o Brasil. E o faz não apenas propondo uma adivinhação que, como na tragédia grega, trata do crescimento, da maturidade e da morte do indivíduo, o brasileiro, mas perguntando ao próprio país, ao Brasil, este que somos, quem e o quê nós seremos no insondável futuro, aquele em que, continuamente, e em mais este dia, adentramos. 
         A percepção de que estamos diante da Esfinge do Brasil é concretizada, na imagem, pelo cenário, pela ambientação fotográfica, que se coloca como uma espécie de síntese do país. De um lado, a favela da Rua Tavares Bastos, na encosta que delimita o bairro do Catete. De outro, em destaque, o prédio da Praia do Flamengo 200, que abriga verdadeira síntese do país e do mundo, com escritórios de Consulados (Japão e Colômbia), de empresas transnacionais (tais como TBG, do gasoduto Brasil-Bolívia), de estatais brasileiras (em especial a FINEP, Financiadora de Estudos e Projetos nacionais). Entre estes extremos, tão "nossos", o cambiante mar de prédios que abrigam residências e negócios da nossa mais típica classe média.
        E esta imagem, como esfinge que se preza (assumindo, também, a terrível tarefa mitoliterária da esfinge grega), ficará para sempre ali (nesta foto e no meu simplório imaginário), como a Esfinge do Brasil E, como tal, estará sempre a fazer, para mim e para todos, ao menos até que eu me vá, uma singela pergunta antiga (ainda que a redação e o sentido possam variar, no tempo e no lugar): "afinal, que país é este?"...  
         Estará, então, esta Esfinge Brasileira a propor eternamente ao Brasil o cruel "decifra-me ou te devoro", o enigma de cuja solução dependemos para que possamos deixar para trás as velhas formas "religiosas" de aceitação desse destino estático que temos vivido.
         A visceral resposta final a esta pergunta, ultrapassado o perigo das dúvidas, será o sinal de que podemos chegar ao mais profundo conhecimento da nossa identidade.
         E isto, o fim do peso simbólico da Esfinge do Brasil na nossa história, nos redimirá, como Povo e como Nação.
        E nos levará à assunção (e à consequente construção) de um Brasil (desta vez, sem dúvida, sem tantas dúvidas) que será cada vez mais irmanado, mais justo e para sempre soberano.

domingo, 9 de setembro de 2018

13. Leão (ou Esfinge?), entre Niterói e Rio de Janeiro


            Quem convive com a Fotografia há décadas, como eu, ou mesmo os que de repente se deslumbram com ela (o que, neste mundo cada vez mais dinamicamente visual, não deixa de ser surpresa), sabe que o fotografar é também, em si, uma espécie de Literatura. A escrita “pela luz” é uma forma de “rever” as coisas que são vistas “normalmente” por aí. Assim como as melhores formas de escrita (todas as que possam ser, genericamente, literárias) as fotografias também sabem muito bem relatar, de forma distinta, não usual, inusitada, quiçá estranha, aquelas contingências da vida que, no geral, são tidas como “normais”. Em suma, nossos cérebros recriam imagens, as nossas mentes criam conotações e, afinal, pelas linguagens da arte, saímos do trivial e atingimos outras esferas de compreensão das coisas.

Leão ou Esfinge, entre Niterói e Rio de Janeiro - foto Guina Araújo Ramos, 2018


            São tais coisas, a foto intrigante, o texto que impressiona, entre outras muitas experiências artísticas humanas, as que nos causam arrepios, que marcam, que nos afetam e que, por isso, merecem registro. Daí, há arrepios dos mais variados, e quem sou para fazer algum tipo de classificação?... Apenas posso dizer que andei tratando, neste Arrepios Urbanos, de algumas aflições que acomete(ra)m os habitantes da metrópole Rio de Janeiro, mas só o fiz do ponto de vista das vítimas e não dos beneficiados, sempre mais próximo das denúncias do que dos louvores. 

Leão (ou Esfinge?), Ilha da Boa Viagem e MAC (ao fundo: Praia do Flamengo, Sumaré e Pico da Tijuca) 
- foto Guina Araújo Ramos, 2018

Não quer dizer que eu não compreenda que prazeres também causam arrepios...  E este preâmbulo serve de mote, então, para registrar a sensação prazerosa de que fui acometido ao perceber, à minha volta (ou, necessariamente, à minha frente!...) uma imagem que, fotografada de maneira assim literária, pode até mesmo ser considerada uma nova atração turística do Rio de Janeiro, em especial de Niterói: um leão (ou esfinge?) em plena baía da Guanabara! 


Leão (ou Esfinge?) fora da rota das barcas - Guina Araújo Ramos, 2018
            Um leão ou esfinge talvez sazonal, provisório... Não sei quanto tempo vai durar. Talvez até precise da ajuda (faz parte de um parque natural municipal) dos serviços de conservação ou de turismo de Niterói, que o leão/esfinge fica no seu litoral, e é uma ilha próxima da Ilha da Boa Viagem e do MAC, a Ilha dos Cardos, e talvez seja, pela postura indiferente mas imponente, mais do que um Leão, a própria "Esfinge do Brasil"! 

Confesso que não fazia a mínima ideia da identidade desta pequena ilha e, muito menos sabia, depois que a reconheci no mapa, o que eram estes tais cardos... 

Leão (ou Esfinge?)entre pescadores e banhista - Guina Araújo Ramos, 2018

Leão (ou Esfinge?), da praia de Icaraí - 
Guina Araújo Ramos, 2018
Agora sei, e resolvi tomar cuidado com eles: são plantas de belas flores, mas de perigosos espinhos... Cardos (há vários) têm história: são plantas medicinais, usadas para fabricar queijo, e, pelos espinhos, tanto são um símbolo de sofrimento espiritual quanto a planta-símbolo da Escócia!



A ilha está lá desde sempre, os cardos também devem estar (não fui conferir), mas o tal leão (ou esfinge) existe agora, só não sei há quanto, e nem por quanto, tempo. 
E a figura só parece um leão (ou esfinge?) porque na ilha, além de seu amontoado de rochas, apareceu um grupo de arbustos, de tal jeito que, em certos ângulos, como se apresentam nas fotos, eles compõem uma juba, uma face, até mesmo o focinho do leão ou a cara da esfinge. 


Leão (ou Esfinge?) a ver navios - Guina Araújo Ramos, 2018

            E, se falo de ângulo, informo logo de qual ponto de vista o leão (ou esfinge) existe...  

É necessário que no momento da foto se esteja em Niterói e, mais precisamente, no calçadão da praia de Icaraí. A área de abrangência da aparição até que é razoável, uns três quarteirões, mais ou menos da rua Lopes Trovão, no centro da praia, à praça Getúlio Vargas, perto da Reitoria da Universidade Federal Fluminense. Nesse correr da vista, a figura vai se alterando e, fora disto, se deforma, perde a forma de leão (ou de esfinge). 


Leão (ou Esfinge?), Corcovado e avião - Guina Araújo Ramos, 2018
É fácil de ser visto, quase que basta apertar bem os olhos. Pode ser fotografado, no geral, com qualquer máquina fotográfica ou celular. 
Mas, registrar bem o leão (ou esfinge), para que não fique apenas como um vago ponto à distância, pede que o pretenso caçador do leão (ou da esfinge) marítimo(a), e quase carioca, use uma câmera fotográfica que disponha de zoom potente ou que aceite (e que se tenha...) lente de, no mínimo, 200mm (utilizando a antiga referência dos filmes 35mm). Creio mesmo, pela experiência (não pela prática atual, que já me aposentei desses equipamentos volumosos), que uma 300mm é a lente ideal para um enquadramento um pouco mais íntimo... 

E que não demore a fazê-lo, pois nenhuma configuração dura para sempre, nem leão (uma esfinge, talvez), nem imagem de leão ou de esfinge, sequer uma ilhota, um bloco de pedras coberto de plantas, uma árvore e nem, certamente, os cardos.

Tomara que os cardos (ou seja lá quais forem as suas plantas) resistam ao clima, e que as ressacas aliviem a barra da ilha, e que, para sempre sobranceiro, o “Leão dos Cardos”, ou o “Leão do Ingá”, ou o “Leão de Niterói”, ou o “Leão da Guanabara”, algo assim, talvez mesmo a "Esfinge do Brasil", dure bastante à frente das lentes do povo, viralize como celebridade nas redes sociais, faça mesmo o maior sucesso nas mídias.
É melhor mesmo, porque se não, se o bicho ilhado não passar desta primavera [detalhe: após um ano da descoberta, ainda está lá], se o animal visual for escalpelado pelos ventos, se a quimera geográfica cair desmontada pelas intempéries, aí, fico eu pensando, já não sei se não vão dizer, alguém até desdenhará, falar que, afinal, o tal leão ou a tal esfinge da foto do Guina não estava mesmo com nada, que foi um grande fiasco de imagem, que não passava de fake news cenográfica e/ou que, sequer, o tal leão (e talvez nem a esfinge) existia...

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Adendo à questão da percepção do Leão (ou Esfinge?)  


Localização e pontos de vista
O local mais próximo para fotografar a Ilha dos Cardos é o tabuleiro onde o MAC foi construído. A desvantagem é que o fotógrafo se coloca em um ângulo muito superior, praticamente tirando da imagem a localização da ilha.


Mais usual é a foto feita a partir da Praia das Flechas (oficialmente, Praia João Caetano), no trecho que vai da Rua Itapuca à Praça do Ingá (ou Praça César Tinoco). 
Coincidentemente, neste ponto de vista entra um valioso elemento visual na imagem, o Pão de Açúcar, além do ganho de perspectiva, um pouco adiante, com a inclusão do MAC e da Ilha da Boa Viagem. 
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Ilha dos Cardos e Pão de Açúcar - Guina Araújo Ramos, 2018
Uma boa foto!... Pode-se facilmente distinguir o ressalto de pedra chamado de Cadeira do Imperador, o detalhe à direita na ilha, um apelido certamente antigo...
Pena que, deste ângulo, o Leão ou Esfinge) desapareça! 
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Ilhas do Cardo, do Índio e pedra de Itapuca - Guina Araújo Ramos, 2018
 
 
Ocorre que, vindo do Ingá, na direção da Praça Getúlio Vargas (onde fica a reitoria da UFF), com a mudança progressiva do ângulo de visão, a percepção de uma imagem de leão (ou de esfinge) formada pela Ilha dos Cardos vai se esvanecendo. 
 
Leão (ou Esfinge?) em modo "invisível" - Guina Araújo Ramos, 2018
Neste trecho, o que se vê é uma simples rocha no meio do mar, cercada de pedras e parcialmente coberta de plantas, não sei se de apenas cardos... 
 
 
Cabe, ainda lembrar, que, sendo Leão ou Esfinge, tal figura também se torna “invisível” para quem, passando pelo primeiro trecho da Praia de Icaraí, ultrapassa a esquina da Rua Lopes Trovão na direção do canto sul da praia. 
 
Além da perda da perspectiva, que permite ver a formação da imagem de leão ou de esfinge, a própria Ilha dos Cardos passa a ser confundida com o corpo insular maior que se apresenta ao fundo, a Ilha da Boa Viagem.

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[Atualizado em 27/04/2023]