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| Embarque de 2 rodas - Foto: Guina Araújo Ramos, 2026 |
As contradições da vida urbana continuam provocando, em mim e em muitos, muitos arrepios...
Agora, por exemplo, é em duas rodas que a confusão, meio que auto propelida, anda trafegando.
Auto propelido em duas rodas era, até há pouco, o popular e esforçado ciclista a circular, à custa de músculos e suor, em sua bicicleta, fora nós, os pedestres.
Nesse não tão distante tempo, o veículo de transporte em duas rodas que podia ser classificado como “autopropelido” (porém abastecido por combustíveis fósseis) era a icônica motocicleta, a histórica e popular “motoca”.
Eis que avança a tecnologia e vai fazendo inserções desorientadoras entre uma coisa e outra. Surgem a bicicleta elétrica e a "motoca" compacta (ou algo assim, que é muito variada a oferta de modelos). Então, hoje temos os velozes autopropelidos ameaçando pedestres nas calçadas, as elegantes motonetas (ou “scooters) com seus (em geral, suas) impassíveis comandantes (e compras ou crianças numa cesta) e os agitados ciclomotores ("bicicletas com motorzinho", me diz a IA) a se meterem na contramão dos carros. Enquanto isso, as saudáveis e lentas bicicletas, pedaladas por entregadores de tudo e qualquer coisa, continuam a se espremer nas ruas, se arriscando entre os ônibus e as calçadas...
Essa profusão de soluções de transporte motorizado em duas rodas, que virou coqueluche entre os adolescentes abonados (e descuidados), até já prejudica os ativistas do ciclismo na hora de argumentar que andar de bicicleta é exercício saudável, melhor do que se enfurnar num ônibus: hoje em dia o ciclista nem precisa mais pedalar!...
Vai daí que surgiu mais um conflito entre transporte individual e coletivo, agora sobre as águas da Baía da Guanabara. Já que se podia levar a bicicleta na barca Rio-Niterói e continuar pedalando do outro lado, o autoempoderado dono do modernoso autopropelido concluiu que podia fazer o mesmo. Pronto: de repente a barca estava entupida de veículos de duas rodas a disputar lugar com os seres de duas pernas!
Acontece que viagem individual entre as duas cidades (grupos em canoas havaianas não vale!...) só mesmo pela ponte Rio-Niterói, de carro ou de moto (de ônibus, já é coletivo...). E atravessar a ponte nestes bonitinhos mas frágeis “duas rodas” beira o suicídio... Aí, observador neutro que sou (dado que, para sobreviver ao trânsito de Botafogo, vendi minha última “baique” para o porteiro do prédio, por R$50, lá pelos anos 90) entrei em “modo nostalgia”: me lembrei da travessia da baía nas antigas barcas para veículos!... Era criança, curtia: o motorista estacionava o carro na balsa e apenas apreciava a paisagem, o sol, o vento, a chuva, a atração do momento. Só que não se tem mais paciência para um passeio tão lento...
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| Os 2 rodas no pátio da escola - Foto: Guina Araújo Ramos, 2026 |
Então, antes que eu sofra um acidente no trânsito das palavras, vou esperar por (e assistir às) devidas soluções que os especialistas hão de inventar, se é que hão...
Sei não. Parece que estão sendo desorientados, quase atropelados por soluções tecnológicas individualistas aplicadas (e espalhadas), sem freio, pelo mundo a fora, e cidades a dentro.
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# 23 da série Arrepios Urbanos
Fotos: 1. fila de duas rodas nas Barcas da Praça XV
2. Pátio de escola de nível médio em Icaraí, Niterói.