Mostrando postagens com marcador calçada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador calçada. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de abril de 2025

21. Inventando caminhos (1 e 2)

Virou praga urbana e muita gente tem histórias pra contar, não faltam vítimas!...  Por enquanto, potenciais, mas a crescente quantidade delas parece garantir as futuras tragédias... Aqui, duas historinhas pessoais (já publicadas no Facebook) para dar ideia do que rola por aí..

Inventando caminhos (1)  

Sabe-se que o individualismo exacerbado, sob o rótulo de "direito de expressão", levou muita gente de bem à fissura de espalhar mentiras a granel pelas redes sociais, as tais das "fake news"...

Inventando caminhos (1) - Foto: Guina Araújo Ramos - Rua Ator Paulo Gustavo, Icaraí, Niterói - 31/03/2025.
Pois, eis que entrou na moda a proliferação de veículos leves de duas rodas, de pequenas "motocas" a bicicletas motorizadas. E dentro do espírito do tempo, como uma espécie de subproduto, tem sido naturalizado, nas ruas, o que se pode chamar de "invenção de caminhos".
Prática muito criativa, quase uma arte... Podemos ver, então, jovens senhoritas em suas bicicletas elétricas viajando na contramão de ruas movimentadas, rapazes bem malhados circulando por calçadas nem sempre vazias nas suas motocas de pneus largos, essas e outras perigosas formas de prepotência.
Nesta manhã, o jovem bem vestido (camisa social, mochila de marca), talvez precoce empresário ou profissional bem empregado, me surpreendeu (e assustou) vindo calma e silenciosamente pela contramão da rua, ou seja, inventando um caminho.
Adiante, no que o fotografava, encontrou pela frente a dura (e às vezes mortal) realidade, uma pouco sutil demonstração de que sem regulamentação ninguém sobrevive na sociedade humana: deu de cara com um caminhãozinho que, felizmente para ele, circulava em baixa velocidade...
Certamente, não vai ser aí que aprenderá a lição: vai continuar na contramão do respeito aos direitos dos outros!

 --

Inventando caminhos (2)    

A calçada é estreita e logo à frente a jovenzinha tirava do portão do prédio uma dessas motocas elétricas que são, na verdade, motocicletas disfarçadas. 

Inventando caminhos (2) - Foto: Guina Araújo Ramos - Rua Gavião Peixoto, Icaraí, Niterói - 10/04/2025.
Passei por ela e adivinhei que, montada, viria atrás de mim. Nada pessoal, suponho...
Havia um poste estreitando ainda mais a calçada e eu percebi, olhando de soslaio (que são máquinas silenciosas), que era mais negócio parar e dar passagem do que me arriscar a um atropelamento, certamente eletrizante. Ela passou e até agradeceu, não posso nem reclamar...
E seguiu em frente, não só usando o espaço do pedestre como ainda indo na contramão. Também não posso reclamar, não estava na rua...
Há dias vi na TV uma dessas "motocicletas de bolso" correndo atrás de um ônibus do BRT na pista exclusiva na Av. Brasil. Todos achavam "um absurdo", mas logo informaram que seus pilotos não podem ser multadas porque não são veículos tradicionais, como carros e motocicletas.
Entendi (afinal, nosso espírito do tempo é liberal): seus "tutores" podem inventar o caminho que quiserem!

 

domingo, 27 de maio de 2012

01. Pedras de arrepiar


Pedra portuguesa solta - Niterói, RJ, 2012
As pedras portuguesas das calçadas cariocas são, talvez, um dos símbolos mais rasteiros do que há de inesperado e de surpreendente nas relações urbanas, estas coisas que nos causam arrepios...

É um piso de pedra trabalhoso, formado pelas menores pedras que a experiência humana aceita para este tipo de uso público. E é também uma alegoria ao esforço coletivo, que vem desde o batente dos operários em sua cadeia produtiva até o efeito final de cobertura de amplos espaços pela multiplicação de minúsculas peças. 
 
Pedra portuguesa, peso de jornais - Botafogo, Rio, 2012
O que se valoriza no piso de pedras portuguesas é o conjunto. É o que as torna pacíficas, protetivas, construtoras. Se isoladas, são um perigo, tanto pelos riscos de acidentes quanto pelo evidente potencial de arma... 
 
As pedras portuguesas sugerem o destino humano: no coletivo, em igualdade de condições, respeitadas e valorizadas as diferenças, são/somos pura arte.
Mas, quando se colocam acima do outros ou invadem os espaços alheios, a menos que possam ser úteis ao geral, só criam perigos e problemas.


Alguém terá escrito a História das Calçadas, ou dos Pisos, ou dos Passeios (eu não ousaria...), mas é certo que houve e há pisos de pedras maiores, irregulares ou não. 
Pisos de pedras: o pós-moderno e o colonial - Paço Imperial, Rio, 2012

Dois deles, por exemplo, se encontram no entorno do Paço Imperial, no Rio de Janeiro: as pedras de cantaria da época da construção do prédio, certamente batidas por escravos dos tempos coloniais, e as pedras cortadas em máquinas industriais, num arranjo recente que sugere algum improviso, mas pode ser um novo padrão urbanístico local.

Não longe dali, na sempre redescoberta Pequena África, a História, mais uma vez, mostra que há pedras sob os seus pesados pés.  
As obras de reurbanização do porto do Rio de Janeiro trouxeram à superfície, no mesmo espaço, duas diferentes calçadas neste antigo porto da cidade: as pedras do Cais do Valongo, que foi, por décadas (1750-1831), um local de chegada de escravos africanos, os "pretos novos", e, pouco acima, as pedras que o esconderam e sublimaram, as do Cais da Imperatriz, construído em 1843 sob o pretexto de receber a nova imperatriz do Brasil, D. Teresa Cristina, vinda de Nápoles, esposa por procuração de D. Pedro II.  
   
Pisos do Cais do Valongo e do Cais da Imperatriz - Rio, 2012

Pelas pedras irregulares do piso mais baixo, quase se pode imaginar a presença dos pés descalços, dos corpos feridos de escravos recém chegados... 
Pelas pedras arrumadinhas do poder imperial, um nível acima, pode-se sonhar com pés almofadados em sapatinhos de cristal, aquecidos por meias bordadas, que as pisaram levemente...

Há mesmo uma pedra no caminho?... 
Há, é claro: o ser humano sempre tropeça nas coisas!... 
E também estamos no caminho das pedras: não há pedaço do mundo a salvo da empedernida vocação (e do poder) de destruição do ser humano. 
Parece que, afinal, lá pelo final dos nossos tempos, o monumento que nós, os humanos, o terror das espécies, deixaremos no nosso exaurido planeta será exatamente aquele da canção e da História do povo brasileiro: as pedras que pisamos.

O Cais do Valongo foi declarado pela UNESCO, 
a partir de proposta do IPHAN, em 2017,
"Patrimônio Histórico da Humanidade".
Um ano depois, abandonado pela Prefeitura,
Neste 5 de Novembro de 2018,
foi tombado pelo Estado do Rio de Janeiro
.

[Atualizado em 07/11/2018]