Quem
convive com a Fotografia há décadas, como eu, ou mesmo os que de repente se
deslumbram com ela (o que, neste mundo cada vez mais dinamicamente visual, não
deixa de ser surpresa), sabe que o fotografar é também, em si, uma espécie de Literatura. A escrita “pela luz” é uma forma de “rever” as coisas que são vistas “normalmente”
por aí. Assim como as melhores formas de escrita (todas as que possam ser, genericamente, literárias) as fotografias também sabem muito bem relatar, de forma distinta, não usual,
inusitada, quiçá estranha, aquelas contingências da vida que, no geral, são tidas como “normais”.
Em suma, nossos cérebros recriam imagens, as nossas mentes
criam conotações e, afinal, pelas linguagens da arte, saímos do trivial e atingimos outras
esferas de compreensão das coisas.
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Leão ou Esfinge, entre Niterói e Rio de Janeiro - foto Guina Araújo Ramos, 2018 |
São tais
coisas, a foto intrigante, o texto que impressiona, entre outras muitas
experiências artísticas humanas, as que nos causam arrepios, que marcam, que nos afetam e que,
por isso, merecem registro. Daí, há arrepios dos mais variados, e quem sou para
fazer algum tipo de classificação?... Apenas posso dizer que andei tratando,
neste Arrepios Urbanos, de algumas
aflições que acomete(ra)m os habitantes da metrópole Rio de Janeiro, mas só o fiz do ponto de
vista das vítimas e não dos beneficiados, sempre mais próximo das denúncias do
que dos louvores.
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Leão (ou Esfinge?), Ilha da Boa Viagem e MAC (ao fundo: Praia do Flamengo, Sumaré e Pico da Tijuca) - foto Guina Araújo Ramos, 2018 |
Não quer dizer que eu não compreenda que
prazeres também causam arrepios... E
este preâmbulo serve de mote, então, para registrar a sensação prazerosa de que
fui acometido ao perceber, à minha volta (ou, necessariamente, à minha frente!...)
uma imagem que, fotografada de maneira assim literária, pode até mesmo ser
considerada uma nova atração turística do Rio de Janeiro, em especial de Niterói:
um leão (ou esfinge?) em plena baía da Guanabara!
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Leão (ou Esfinge?) fora da rota das barcas - Guina Araújo Ramos, 2018 |
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Leão (ou Esfinge?)entre pescadores e banhista - Guina Araújo Ramos, 2018 |
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Leão (ou Esfinge?), da praia de Icaraí - Guina Araújo Ramos, 2018 |
A ilha está lá desde sempre, os cardos também devem estar (não fui conferir), mas o tal leão (ou esfinge) existe agora, só não sei há quanto, e nem por quanto, tempo.
E a figura só parece um leão (ou esfinge?) porque na ilha, além de seu amontoado de rochas, apareceu um grupo de arbustos, de tal jeito que, em certos ângulos, como se apresentam nas fotos, eles compõem uma juba, uma face, até mesmo o focinho do leão ou a cara da esfinge.
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Leão (ou Esfinge?) a ver navios - Guina Araújo Ramos, 2018 |
E, se falo
de ângulo, informo logo de qual ponto de vista o leão (ou esfinge) existe...
É necessário que no momento da foto se esteja em Niterói e, mais precisamente, no calçadão da praia de Icaraí. A área de abrangência da aparição até que é razoável, uns três quarteirões, mais ou menos da rua Lopes Trovão, no centro da praia, à praça Getúlio Vargas, perto da Reitoria da Universidade Federal Fluminense. Nesse correr da vista, a figura vai se alterando e, fora disto, se deforma, perde a forma de leão (ou de esfinge).
É necessário que no momento da foto se esteja em Niterói e, mais precisamente, no calçadão da praia de Icaraí. A área de abrangência da aparição até que é razoável, uns três quarteirões, mais ou menos da rua Lopes Trovão, no centro da praia, à praça Getúlio Vargas, perto da Reitoria da Universidade Federal Fluminense. Nesse correr da vista, a figura vai se alterando e, fora disto, se deforma, perde a forma de leão (ou de esfinge).
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Leão (ou Esfinge?), Corcovado e avião - Guina Araújo Ramos, 2018 |
Mas, registrar bem o leão (ou esfinge), para que não fique apenas como um vago ponto à distância, pede que o pretenso caçador do leão (ou da esfinge) marítimo(a), e quase carioca, use uma câmera fotográfica que disponha de zoom potente ou que aceite (e que se tenha...) lente de, no mínimo, 200mm (utilizando a antiga referência dos filmes 35mm). Creio mesmo, pela experiência (não pela prática atual, que já me aposentei desses equipamentos volumosos), que uma 300mm é a lente ideal para um enquadramento um pouco mais íntimo...
E que não demore a fazê-lo, pois nenhuma
configuração dura para sempre, nem leão (uma esfinge, talvez), nem imagem de leão ou de esfinge, sequer uma
ilhota, um bloco de pedras coberto de plantas, uma árvore e nem, certamente, os cardos.
Tomara que os cardos (ou
seja lá quais forem as suas plantas) resistam ao clima, e que as ressacas aliviem a barra da ilha, e
que, para sempre sobranceiro, o “Leão dos Cardos”, ou o “Leão do Ingá”, ou o “Leão
de Niterói”, ou o “Leão da Guanabara”, algo assim, talvez mesmo a "Esfinge do Brasil", dure bastante à frente das lentes do
povo, viralize como celebridade nas redes sociais, faça mesmo o maior sucesso nas mídias.
É melhor mesmo, porque se não, se o bicho ilhado não passar desta primavera [detalhe: após um ano da descoberta, ainda está lá], se o animal visual
for escalpelado pelos ventos, se a quimera geográfica cair desmontada pelas intempéries, aí, fico eu pensando, já não sei se não vão dizer, alguém até desdenhará, falar que, afinal, o tal leão ou a tal esfinge da foto do
Guina não estava mesmo com nada, que foi um grande fiasco de imagem, que não passava de fake news cenográfica e/ou que, sequer, o tal leão (e talvez nem a esfinge) existia...
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O local mais próximo para fotografar
a Ilha dos Cardos é o tabuleiro onde o MAC foi construído. A desvantagem é que
o fotógrafo se coloca em um ângulo muito superior, praticamente tirando da
imagem a localização da ilha.
Neste trecho, o que se vê é uma simples
rocha no meio do mar, cercada de pedras e parcialmente coberta de plantas, não
sei se de apenas cardos...
Cabe, ainda lembrar, que, sendo Leão
ou Esfinge, tal figura também se torna “invisível” para quem, passando pelo primeiro trecho da Praia de Icaraí, ultrapassa a esquina da Rua Lopes Trovão na direção do canto sul da praia.
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Adendo
à questão da percepção do Leão (ou Esfinge?)
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Localização e pontos de vista |
Mais usual é a foto feita
a partir da Praia das Flechas (oficialmente, Praia João Caetano), no trecho que
vai da Rua Itapuca à Praça do Ingá (ou Praça César Tinoco).
Coincidentemente, neste ponto de vista entra um valioso elemento visual na imagem, o Pão de Açúcar, além do ganho de perspectiva, um pouco adiante, com a inclusão do MAC e da Ilha da Boa Viagem.
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Uma boa foto!... Pode-se facilmente distinguir o ressalto de pedra
chamado de Cadeira
do Imperador, o detalhe à direita na ilha, um apelido certamente antigo...
Coincidentemente, neste ponto de vista entra um valioso elemento visual na imagem, o Pão de Açúcar, além do ganho de perspectiva, um pouco adiante, com a inclusão do MAC e da Ilha da Boa Viagem.
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Ilha dos Cardos e Pão de Açúcar - Guina Araújo Ramos, 2018 |
Pena que, deste ângulo, o Leão
ou Esfinge) desapareça!
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Ocorre que, vindo do Ingá, na direção da Praça Getúlio
Vargas (onde fica a reitoria da UFF), com a mudança
progressiva do ângulo de visão, a percepção de uma imagem de leão (ou de esfinge) formada pela
Ilha dos Cardos vai se esvanecendo.
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Leão (ou Esfinge?) em modo "invisível" - Guina Araújo Ramos, 2018 |
Além da perda da perspectiva, que permite
ver a formação da imagem de leão ou de esfinge, a própria Ilha dos Cardos passa a ser
confundida com o corpo insular maior que se apresenta ao fundo, a Ilha da Boa Viagem.
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[Atualizado em 27/04/2023]