Niterói é o que se vê no universo do noticiário:
uma cascata.
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| Favela Castro Alves, Fonseca, 2018 |
Uma cascata que desce dos píncaros da elite juridicamente
protegida às margens das praias da Baía da Guanabara para se espalhar pelas
vantagens da classe média dos jardins de Icaraí, São Francisco e algumas outras
ilhotas oceânicas de conforto em um mar de desigualdades. Do remanso protegido
da classe média, que se incomoda com engarrafamentos e a vizinhança da
multiplicação da especulação imobiliária, a cascata se dilui pelo interior da
cidade, pelo mar de morros dos subúrbios escondidos, pelas vielas e ladeiras
das favelas, de Ititioca ao Jacaré, de Jurujuba a Caramujo, nas escadarias das "comunidades" (como a do Castro Alves, no Fonseca), nas beiradas da cidade onde
sobrevive o povo que a constrói e que a sustenta enquanto os governos muito mal a preservam.
Apesar da falsa capa da prosperidade que lhe é dada
pelo dinheiro desperdiçado dos royalties do petróleo, Niterói é uma cidade com
alto grau de desigualdade, basta sair da beira das praias... A grande maioria
dos habitantes de Niterói precisa de serviços públicos de qualidade e de que lhe
atendam os direitos básicos, em educação, saúde, habitação, e não da cooptação visando
resultados eleitorais nem de obras de "embelezamento" superficial.
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Segregação racial: EUA x Brasil
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Apesar dos paliativos e do marketing como política
de governo, que supostamente tornaria mais justa a cidade, a situação da
distribuição racial, social e econômica em Niterói não muda há décadas. Segundo
a Brown University e o IBGE, conforme matéria da revista Nexus, a cidade de
Niterói tem o maior "índice de dissimilaridade" (ou seja, de desigualdade)
do Brasil, conforme o quadro que publicam.
O Mapa Interativo de Distribuição Racial no Brasil (baseado
nas autodeclarações do Censo) mostra, nessa questão, em Niterói, diferenciações
geográficas radicais (população branca, em azul; negros e pardos, em amarelo e verde). Há áreas com população quase 100% branca, com Ingá, Icaraí e São Francisco em
destaque, e há trechos de predominância total de negros e pardos, que correspondem
aos morros cobertos por favelas, com destaque para o Cavalão, exatamente ao
lado de Icaraí, e ao morro do Estado, entre o Centro e Icaraí.
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Mapa racial de Niterói - IBGE, 2010
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Esta geografia sócio racial é mortal, pelo menos para
os negros e favelados. O jornal El País apresenta o drama numa matéria
sobre a segregação racial na cidade, e os dados são cruéis: “Em Niterói, 60% de todas
as mortes violentas ocorridas em 2019 foram cometidas por agentes policiais do
Estado do Rio. De todas as vítimas da polícia, 88% eram negras, de acordo com
os dados do Instituto de Segurança Pública analisados pela Casa Fluminense. O
percentual chega a ser maior que em todo o Brasil (75,4%), na região
metropolitana do Rio (79%) e na capital Rio de Janeiro (81%). Em números
absolutos: a polícia matou 125 pessoas no ano passado em Niterói; 110 eram
negras.”
Ainda assim, há quem pense que, comparado ao Rio de
Janeiro, Niterói seja uma "cidade-sorriso", como diz a propaganda da prefeitura.
Será que os moradores das 120 favelas da cidade, cerca de
40.000 famílias, segundo dados do Boletim ONU/NEPHU-UFF (já, em 2020, segundo a própria Prefeitura, 204 favelas), ou seja, mais de 150.000 pessoas, quase um terço da população, diriam
que vivem em uma cidade feliz ou que estão felizes na cidade?...  |
| Casa de pau a pique, Morro do Arroz - Niterói, 2016 |
Simplesmente continuam
vivendo do mesmo jeito que viviam nos anos 1980. Ainda há casas de pau a pique no morro do Arroz, favela do complexo do Morro do Estado, a pouco mais de um quilômetro da sede da Prefeitura,
tanto por dificuldade de acesso de material de construção pela estreita escada disponível,
e também por mera pobreza.
A miséria nas ruas de Niterói também é uma marca registrada da cidade, enquanto o dinheiro é gasto em obras espetaculares. Antes da pandemia, apenas caminhando pelas ruas do Centro e dos bairros mais ricos, não era difícil encontrar moradores e trabalhadores de rua, verdadeiros precursores dos home offices pandêmicos, de quando em vez defenestrados desses lugares pela repressão armada para atender a armações midiáticas.
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| Prédio do Conjunto Zilda Arns, 2016 |
Enquanto isso, as propagandas
eleitorais nas favelas são as mesmas das campanhas anteriores, e nada muda... A menos que haja
uma tragédia ambiental, o que, por mais que traumatize a opinião pública, não garante atendimento de qualidade às vítimas. Que o digam os desabrigados do Morro do Bumba e adjacências, que levaram cerca de cinco anos para serem alojados no conjunto residencial Zilda Arns, cuja construção é de tão baixa qualidade que dois prédios tiveram que ser derrubados antes de ficarem prontos! E os que restaram não estão em condições muito melhores...
Niterói, com o tempo, talvez se transforme em uma
onda...
Uma onda que virá lá do fundo do território, do chão inseguro do município,
da base de um oceano de gente, uma onda que virá com toda força porque virá de
um povo comprimido, uma onda que crescerá e tomará fôlego nos bairros
intermediários, pela consciência que a classe média ganha enquanto se muda de
residências agradáveis para prédios encaixotados, e daí essa onda crescerá até
a crista poderosa que se coloca frente à baía, e é aí que se verá a espuma
poluída dos poderosos, da elite que se auto-privilegiou ao tirar os ganhos do trabalho
que vem do povo, uma crista que se tornou uma crosta, pela posição
desequilibrada que assumiu na sociedade, e cairá desta crista em estrondosa
derrota de ideias, de vontades e de poderes.
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Casarão da Pres. Domiciano (esquina de R. Antônio Parreiras) - São Domingos.
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Niterói não será para sempre um relicário de joias arquitetônicas que iludem
a percepção do que se tem a ver.
Niterói terá que se tornar mais justa, tão rápido
quanto possível, ou não resistirá às contradições que ela própria cria.
É amargo o sorriso dessa cidade: Niterói sorri enquanto mata.
[Fotos e texto: Guina Araújo Ramos]
Atualizado em 01/08/2021.