domingo, 7 de junho de 2015

08. O Rio de Janeiro continua à venda!


Até os mais fanáticos por competições esportivas ou por revitalizações urbanas já perceberam: há alguma coisa de muito mal cheirosa no esforço da Prefeitura de entupir o Rio de Janeiro de obras "maravilhosas"...


No Porto Maravilha, enquanto as moradias desaparecem, apenas alguns espigões (talvez felizmente) estão subindo, as mudanças no sistema viário pioram a mobilidade geral e falta previsão de transporte coletivo para a área, a não ser para os turistas do futuro bondinho do VLT. Já o governo estadual (não) faz a sua parte: se a expansão do Metrô é fim de linha, as barcas novas não cabem nas docas nem se expandem nas rotas. E paira sobre eles o governo federal, padrinho das jogadas dominantes da cidade, que, apesar das traições, continua passando a mão nas cabeças dos responsáveis.  
 
A Prefeitura do Rio destrói Vila Autódromo - Foto: Guina Araújo Ramos, 2015
Pior do que a incompetência suspeita das obras, muitas realizadas pelo método patético, são os escusos interesses que, por baixo dos panos da cobertura midiática, comandam as ações de urbanização e de mobilidade no Rio de Janeiro impostas aos cariocas desorientados, ancoradas numa forçada urgência da aproximação das Olimpíadas.


Talvez o aspecto mais cruel dessas ações, algumas praticamente insanas, tenha sido o retorno, com as desculpas de praxe, às políticas de remoção de comunidades (favelas ou não), sempre com consequências dramáticas para o povo, mas do mais alto interesse para a chamada "especulação imobiliária". Poderíamos até, se fosse ficção e não pura realidade, imaginar um filme, "O Ataque do Bicho Papão (de Imóveis)"...


Tome-se como exemplo o drama de Vila Autódromo.  Até o Rio se render ao "padrão FIFA", o lugar não passava de um minibairro de Jacarepaguá, com pouco mais de 500 famílias, oriunda de pescadores, entre outros trabalhadores, que se instalaram na foz do canal Pavuninha, à beira da lagoa de Jacarepaguá, em terra pertencente ao Estado e ainda não “grilada” por especuladores imobiliários, coisa tão comum na Barra da Tijuca... 
Não passava de um detalhe humano na Baixada de Jacarepaguá, área de restingas e lagoas, uma espécie de “Pantanal carioca” isolado da parte urbanizada da cidade por montanhas e florestas.


Nos anos 1970, ao lado da comunidade construíram um autódromo, o qual, apesar de cuidadosamente fechado por alto muro, demandava serviços e até lhe deu nome: Vila Autódromo. Nas três décadas seguintes, com a cidade se espalhando para a região, com avenidas, prédios, shoppings etc, ganhou ruas definidas, comércio e igrejas etc, mas sem tráfico nem milícias... Nas décadas seguintes, governos sensíveis às carências populares concederam a seus moradores a posse dos terrenos, e por 99 anos!… Aliás, há muito tempo o local foi definido, pela própria Prefeitura do Rio de Janeiro, como Área de Especial Interesse Social, o que significa que deve ser ocupado predominantemente por habitação de população de baixa renda.


Parque Olímpico invade V. Autódromo - Foto: Guina Araújo Ramos, 2015

No século XXI, o Rio de Janeiro entra no circuito dos Mega Eventos. O Pan-Americano foi apenas uma ameaça, a Copa do Mundo não chegou perto, mas as Olimpíadas vieram... 

A princípio, parecia que Vila Autódromo não seria prejudicada, foi respeitada pelo projeto vencedor da construção do Parque Olímpico. 

Porém, por trás dos Jogos e abençoado pelo grupo político que governa o Rio de Janeiro ("Olimpíadas serve para fazer qualquer coisa", chegou a dizer o prefeito), vieram os interesses imobiliários. 
Vila Autódromo foi incluída na área a ser entregue às construtoras, parte do generoso pagamento pelas obras do Parque Olímpico, transformando paz em tragédia, o mesmo "pacote imobiliário" que atingiu o ex-Autódromo:

"Hoje o espaço pertence ao Consórcio Rio Mais. Isto aconteceu num passe de mágica, através de uma PPP (Parceria Público Privada) espúria onde a Prefeitura do Rio concedeu o uso do que não era dela, mas sim do Estado do Rio de Janeiro, ao tal Consórcio. Tudo isto em troca apenas das obras de infraestrutura do mencionado Parque. (...) Formado pelas construtoras Andrade Gutierrez, Odebrecht e Carvalho Hosken, este consórcio, no fundo, pretende fazer do local uma cidade para poucos." (in O que é o Consórcio Rio Mais)


As Olimpíadas se aproximam, o negócio está feito, é preciso entregar o combinado: as empreiteiras querem os altos lucros da construção de condomínios para a classe média. 

Vila Autódromo resiste! - Foto: Guina Araújo Ramos, 2015
Contra este poder, Vila Autódromo tem apenas o direito dos seus moradores àquele pedaço de terra. Da luta dos moradores, resultou a elaboração do Plano Popular de Vila Autódromo, com apoio técnico de universidades públicas (UFF e UFRJ), uma proposta alternativa de urbanização, muito mais barata do que as remoções. Um projeto com qualidade suficiente para ganhar, entre 170 candidatos, o Urban Age Award 2013, patrocinado pelo Deutsch Bank e prestigiado pela London School of Economics, um prêmio totalmente desconsiderado pela Prefeitura (seria entregue no Palácio da Cidade, mas cancelaram o evento...)


Vive-se no Rio de Janeiro a "microditadura" das irmandades e/ou famílias locais, que dominam mais que quatro poderes... Insuflado pelas cobranças da mídia, que lhe é parceira (mas também das empreiteiras), o Prefeito Eduardo Paes, afrontando até a Constituição, as decisões judiciais e a opinião pública, mantém sua ação brutal (com assédio, astúcia ou violência) no sentido de forçar a remoção completa da comunidade. Assim, conseguiu que uma parte se mudasse para apartamentos (que foram, na verdade, comprados) de um novo conjunto residencial ali perto, que já tem problemas, por má qualidade de construção; e que outros aceitassem indenizações, na maioria insuficientes (exceto as dos negociantes da área). Apesar dessas manobras da Prefeitura, um grupo de cerca de 170 famílias, dentre as mais de 500 originais, continua resistindo e pretende permanecer, o que é direito seu.


Vila Autódromo: "Nem todos têm um preço!" - Foto: Guina Araújo Ramos, 2015

"O povo que se dane!", parece ser o lema... 
Outros diriam: "É o dinheiro, otário!"... 
Afinal, o negócio é de alto nível: políticos interessados na venda da cidade, empresas buscando faturar o máximo, esquemas internacionais explorando paixões esportivas… E na outra ponta, no lado que dói, algumas dezenas de famílias, que apenas querem continuar a viver sua vida, criar seus filhos no lugar onde cresceram.


Nas fotos, o convívio amargo dos moradores de Vila Autódromo com a destruição cotidiana, vinda justamente das autoridades que deveriam protegê-los… 





E o grito lancinante da sua resistência, expresso em pichações nas ruínas dos lares destruídos pela Prefeitura do Rio de Janeiro, esta cidade duvidosamente olímpica… 




Apesar de tudo, Vila Autódromo vive!
 
 
Fotos: Guina Araújo Ramos, 2015

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

07. Rio de Janeiro, Cidade Vendida

O Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, há tempos se tornou uma Cidade Partida. 
Atualmente, a forma mais simples e direta de descrevê-la é: Rio de Janeiro, Cidade Vendida.  
.
A face humana do Rio: o Centro da cidade visto do Morro dos Prazeres. Foto Guina Araújo Ramos, 2014
O Brasil vive momentos de alta efervescência (o que, reconheçamos, é melhor do que a pasmaceira acomodada da maior parte da nossa História...), mas toda esta indignação – que trouxe às ruas, campo de luta, e às redes sociais, boteco virtual, as mais variadas manifestações – resultou em poucas mudanças concretas. Ironicamente, pela multiplicidade de urgências do país, toda esta agitação tem ajudado a manter enrijecidas estruturas sociais, ao servir de cortina de fumaça (de gás lacrimogênio...) para velhas (mas sempre renovadas...) práticas políticas e econômicas, as que sustentam os poderosos locais e os seus associados internacionais em sua “eterna” exploração dos recursos (e nativos) locais. Enquanto os donos daqui mantém as suas posições (o Maranhão na Idade Média etc), com o luxuoso auxílio das mídias, os de fora têm ampliado ("é a globalização, estúpido!") as suas carteiras de investimentos.
No Rio, sinal verde para os pedágios e outras concessões. Foto Guina Araújo Ramos, 2014
Entre outros vantajosos negócios no Brasil, das plantations ao pré-sal, crescem (os olhos sobre) os investimentos imobiliários, agora altamente concentrados em projetos de “revitalização” urbana sempre deslumbrantes e tidos como miliardários, em torno de "ícones culturais" bancados pelo Estado. Tratando a cidade como se não fosse orgânica, posto que é habitada por seres humanos, os projetos são, objetivamente, grandes negócios, grandes peças de um jogo de tabuleiro, talvez o Monopólio...
Foi assim que a cidade do Rio de Janeiro  (e sua região metropolitana), muito bem embalada pela própria natureza, tornou-se produto em oferta global, mercadoria de luxo na vitrine do mundo, pastiche tropical de uma Barcelona idealizada pelos interesses...
Baía da Guanabara e Piscinão de Ramos
Foto Mário Moscatelli/olhoverde - Fev/2014
Afinal, nossos políticos são porta-vozes, agenciadores ou meros gerentes desses negócios?... Na prática, assumem qualquer papel, dado que o papel que os estimula, embora verde, é maduro e farto... E são ativos, derrubando e desalojando o que e quem lhes atrapalha, que os compradores estão cobrando e os vendilhões têm que entregar logo (“Derruba rápido este elevado!”) e de forma segura (“O Brasil precisa de leis contra o terrorismo!”) o produto combinado.
A ironia é que uma venda pode atrapalhar outra... A situação das lagoas e da baía da Guanabara é deprimente, como toda hora demonstra o biólogo Mario Moscatelli, em suas severas denúncias, e isto porque, como ele diz, há um tipo de venda, no Rio de Janeiro, que é uma “indústria da degradação”, através de “empréstimos bilionários onde, sem fiscalização e com a prevaricação comendo solta, o dinheiro serve para tudo, menos para o que veio emprestado”. E, mesmo assim, não é que venderam o Rio de Janeiro como o local ideal para os Jogos Olímpicos de 2016, com “todos os esportes em uma cidade só”, inclusive os náuticos nas águas poluídas da baía da Guanabara?...
Temos, aqui no Rio, o falsamente ingênuo “método patético” do governo municipal de Paes (que reinventa o caos) e a ardilosa estratégia de fragmentação metropolitana do governo estadual de Cabral (que está na raiz dos protestos). São dinâmicas capitaneadas por políticos que, embora com índices de popularidade no fundo do poço, continuam no alto de seus cargos, insistindo nos projetos de seus patrocinadores, sem risco de impedimento por parte dos cooptados legislativos e judiciários locais.
Esta resiliência dos poderosos da vez parece não ser afetada pela grita generalizada das manifestações de rua, nem pelas críticas diretas dos comentaristas abalizados, e há muitos exemplos disso.  
Panamá City, prédios no Centro - Foto Guina Araújo Ramos, 2014

 

Reprodução do Facebook
A professora Sonia Rabello, cuidadosa com a legislação, trouxe à pauta, em seu blog, o que acontece no Panamá (e pode acontecer aqui), a desmesurada proliferação de arranha-céus. A arquiteta Andréa Albuquerque G. Redondo, atenta observadora dos desmandos urbanos, lista extenso rol das arbitrariedades do prefeito. 
Outros amigos de consciência urbanística participam desta reflexão coletiva. E, no entanto, nada muda...
Louvo a cotidiana crítica, que sustenta uma possível esperança, mas fico imaginando (e me arrepio!) como as coisas ficarão, no Rio e no mundo, se tudo continuar como está... 
Sendo o futuro um horizonte de possibilidades, publiquei algumas suposições no conto “Memórias Póstumas do Rio de Janeiro” (pedindo a bênção ao premonitório Machado de Assis), do livro “2112 ...é o fim!” (encontre-o aqui), que deixo como estímulo à reflexão de quem não quer fechar os olhos para o que virá:
“Eis que uma onda internacional se espalha pelo país: acontece a Copa!... Pena que certas ondas sejam assim nebulosas... Também teve o tempo, apertando o clima, o verão se espalhando por todo o ano. E perdas pesadas, em roubos de monta, em ganhos espertos. A chapa cada vez mais quente. Armações em telas, mais fortes que redes. Eu, tudo dominado, rendido, perdi...”
(...)
“A Olimpíada durou nada, não mais que uns dias. Talvez tenha me faltado saco para seguir todas as bolas. Ou não haja mesmo espírito esportivo que aguente tal variedade de desperdício de tempo... Valeu para uns, e também nisso não há novidades. Ganharam mais, do ouro, empreiteiras, construtoras, imobiliárias... Da prata, seus políticos particulares, em lançamentos secretos. Do bronze, quem foi à praia e não deu a ela a menor bola...”
(...)
“Dei-me conta de que, de pedra a concreto, mudaram as arcadas da boca banguela da baía da Guanabara (já a aparência, em nada), esta ranzinzice de Lévi-Strauss, por Caetano, em música, relembrada. Além dos pontos que louva, Pão de Açúcar, Corcovado, agora eu tinha implantes, uma protética arquitetura de isolados prédios em terrenos de ponta, que me foram espetados, os Towers & Trades & Trumps, monumentais dentes artificiais a me morder a histórica paisagem.”
E, se a coisa continuar assim, por aí afora e adiante, parece mesmo que para o Rio, Cidade Vendidase não antes, “2112 ...é o fim!”...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

06. Niterói perde a vista, e perde a prazo...



As esferas políticas e econômicas se intercomunicam, são construções humanas...
Os humanos das grandes empresas, com ajuda de políticos de confiança, descobriram a expansão das cidades como vantajoso negócio. No Brasil, a onda de recuperação de frentes marítimas ou fluviais (“waterfronts”), com evidente inspiração estrangeira, tornou-se vagalhão... A toda hora, empresas ardilosas e arquitetos escolados arrotam Baltimore e Barcelona sobre os subdesenvolvidos habitantes deste país de extenso litoral...

Prédio de 40 andares e a cidade tradicional
Rua da Assembléia, 10 – Rio de Janeiro, 2013
Desavisados das intenções esconsas e iludidos por imagens dinâmicas, nós, subalternos culturais, nos apaixonamos à primeira vista pelos projetos... Com sutis estímulos e módicas colaborações, legisladores locais aprovam flexíveis leis que criam Cepacs, moeda mágico-financeira para a venda de novos espaços construtivos nos mesmos lugares onde, antes, podia-se construir muito menos...
Assim, através da surpresa e da propaganda, surgiu no Rio o Porto “Maravilha”, um verdadeiro castelo de Cepacs... Propôs, como se fosse de todo bom, a construção de dezenas de prédios com até 50 andares. E também cortes profundos, de remoções teleféricas no antigo morro da Favela (“civilizado” com o nome de morro da Providência) ao bota-abaixo de vias urbanas, com implosivo destaque para o elevado da Perimetral, a ser substituído (sem ganho expressivo de mobilidade) por túneis e avenidas. 
Sempre a prioridade para o transporte individual (nada de Metrô na área), mais um dos excessos urbanos capitaneado pela dupla que, toda hora, “volta atrás”... Quem sabe, com a manifestação dos cariocas, não voltem atrás em relação à derrubada da Perimetral?...

Araribóia, fundador de Niterói e defensor do Rio de Janeiro:
em seu lugar podem ser construídos 2 prédios de 40 andares...

Pois, muito pior do que esta imitação (que sai cara) é a imitação barata que terá custo alto!... Do outro lado da baía, um seu (deles) pupilo tenta emplacar uma Operação Urbana Consorciada, a OUC-Centro de Niterói, uma versão do Porto “Maravilha”, adaptação de versão proposta ao governo anterior, que seria a salvação da pátria temiminó, a tribo de Araribóia...

O projeto, oferecido a vários candidatos a prefeito (antes da eleição de 2012) por construtoras nacionais (Odebrecht, OAS e Andrade Gutiérrez) e defendido por arquiteta formada em Barcelona, parece mais uma invasão extraterrestre...
Comparação entre a situação atual e o projeto da OUC Centro Niterói
Desconsidera o estímulo ao crescimento orgânico do Centro (como incentivos aos moradores e comerciantes locais), enquanto veste uma fantasia ambiental (jardins vagamente assemelhados ao Aterro do Flamengo, marina pública, vila comercial de pescadores). Quando vai ao ponto, introduz o que realmente doerá na pele (e na vida) dos niteroiense: a descarada criação de espaços de especulação imobiliária, da mais alta lucratividade para as empresas proponentes. Não casualmente, as maiores financiadoras das campanhas políticas de quase todos os candidatos da última eleição municipal, com destaque para o atual prefeito.
É grande a indiferença (como aconteceu, a princípio, no Rio), mas críticas coerentes logo surgiram, por entidades e profissionais ligados a questões urbanísticas e pelo Ministério Público (que foi à Justiça), todos pedindo, até que se faça a atualização do Plano Diretor da cidade (defasado há mais de 10 anos), a retirada do Projeto de Lei da Câmara dos Vereadores

Perfil previsto para o Centro de Niterói, visto da baía.

Projeção do Projeto OUC em Audiência Pública, Agosto/2013
Anúncio vende a vista e o prédio...

A proposta é de tal modo alienígena e invasiva que até setores do mercado imobiliário, como a Ademi local, juntaram-se aos protestos, quando não tentam outras formas de “escapar à invasão”...  Recentemente, foi posto à venda um prédio situado bem em frente à estação das barcas e o anúncio apregoa a vista que se tem “da janela para fora”. Uma evidente tentativa de se livrar de um futuro “mico”, porque o projeto da OUC permite, além dos mais de 15 (quinze) prédios de até 20 (vinte) andares entre o Caminho Niemeyer e a área antiga da cidade, a construção exatamente neste lugar (justo onde hoje está a estátua de Araribóia...) de dois prédios de até 40 andares!...  

Entre tantos (que a discussão promete ir longe), dois pontos podem ser destacados:
1) passam pelo Centro de Niterói cerca de 500.000 pessoas por dia, ou seja, tantas pessoas quanto são os habitantes de toda a cidade!...
Este projeto não desenvolverá o Centro de forma harmônica, orgânica, com a integração destas pessoas. A consequência mais geral, a médio prazo, será a expulsão de moradores e de comerciantes de baixa renda, o que chamam de “gentrificação”, entre outros malfeitos...
Para o Fórum UFF Cidades, é baseado na “atração do grande capital imobiliário, que expulsará a população e as atividades tradicionais”. Em seu lugar, a proposta, explicaRegina Bienenstein, da Arquitetura-UFF, é ampliar “a melhoria dos serviços urbanos; o estímulo ao aproveitamento dos imóveis vazios e subutilizados como moradia popular e de classe média; a organização do dinâmico comércio popular; a valorização do comércio já presente na área e o incentivo à recuperação do patrimônio edificado”;

2) o trecho do Caminho Niemeyer em frente ao Centro (construído em área parcialmente aterrada, há décadas, para fins de especulação imobiliária) realmente precisa ser valorizado.
Caminho Niemeyer - Teatro Popular - Junho/2013
A sua referência, ainda que vaga, é o Aterro do Flamengo, cujo projeto, sabiamente, dispensou prédios de muitos andares e em grande quantidade... Decisão que valorizou progressivamente as construções e os bairros circundantes, dando à cidade do Rio de Janeiro um espaço que a prestigia cultural e economicamente. Sem prédios gigantescos e com equipamentos de uso público, a OUC do Centro de Niterói poderá engrandecer a cidade (se seus governantes perceberam a riqueza desta opção), deixando de ser uma proposta meramente interesseira.

Em suma, a humanidade cresce e a cidades mudam, precisam mudar...
As cidades pertencem aos seus habitantes e todos, a cidade e as pessoas, devem crescer em consonância. Não podem ser tratadas como mercadorias, tendo como parâmetro apenas o dinheiro e o lucro de alguns.
Governantes que aceitam agir desta maneira, privilegiando interesses econômicos mesquinhos em troca de favores circunstanciais, estão roubando do cidadão e da cidade o seu futuro.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

05. A fragmentação das vias (e das vidas) no Rio de Janeiro Metropolitano



Na legislação brasileira há suficiente presença do conceito de “metrópole” como necessária forma de organização politico-administrativa dos grandes aglomerados urbanos. Muito bom, mas ainda estamos longe de resultados eficientes...

A característica fundamental desta recente condição metropolitana ainda é a fragmentação, dado obviamente inerente às metrópoles, que, conurbações induzidas por um grande centro urbano, desconsideram limites municipais.

A fragmentação pode ser interessante questão teórico-acadêmica, mas significa, na prática, para o cidadão, cruéis situações cotidianas. No Rio de Janeiro Metropolitano, o sofrimento na mobilidade urbana (termo da moda para “meios de transporte”) chega às raias do patético...

O lotação (e filhos) de Seu Oscar - Rio, 1952
Há, evidentemente, uma base histórica, que explica, por exemplo, a interrupção das linhas da atual SuperVia na chegada ao Centro da cidade, obra de uma época em que, na outra direção, a atual Zona Sul, não havia praticamente nada. Também é histórico o domínio das empresas de ônibus na oferta de transportes na cidade, desde os tempos em que agregaram os “lotações” particulares, e até meu pai teve um, nos anos 50... E é mais do que evidente o aumento do sofrimento dos usuários nas recentes décadas de capitalismo neoliberal, com a generalização das concessões de serviços de transporte público (barcas, trens, metrô...) às empresas privadas.

Colcha de retalhos, por D. Nylza
Os tempos passam, os lucros crescem... Hoje, no Grande Rio, a (i)mobilidade é uma colcha de retalhos, e é uma pena que não seja tão bonita como as que minha mãe fazia... Temos várias redes de transporte não integradas e rotas de viagem interrompidas por obstáculos, alguns reais, outros inventados por (des)interesses valiosos... São fragmentações que resultam em cortes na carne do povo. São extorsões, e não apenas do dinheiro, mas (mais cruelmente) do desgastado tempo do usuário...

Ponto de ônibus no Trevo das Forças Armadas
Um exemplo (quase aleatório, entre tantos) acontece a cada fim de tarde no Trevo das Forças Armadas, um conjunto de viadutos por que passam fluxos de veículos de (e para) a Radial Oeste, a Av. Brasil e o Centro, e onde também termina o elevado da Av. Paulo de Frontin. 
Por ali passam linhas de ônibus que trazem trabalhadores da Zona Sul (através do túnel Rebouças) com pontos finais nas estações São Cristóvão do Metrô e da SuperVia. A parada de ônibus deste local acaba servindo aos que precisam pegar outro ônibus na Av. Francisco Bicalho, nos pontos em frente à antiga estação da Leopoldina, para eles único jeito de acessar a Av. Brasil. 
Caminhada para pegar ônibus para Av. Brasil
Assim, todo fim de tarde e início de noite, sofridos passageiros, numa fila contínua, atravessam os abandonados jardins do trevo e cruzam perigosas avenidas para pegar, a uns 600m de distância, o seu segundo ônibus da longa jornada de volta ao lar...

Linha 2, entre Triagem e Maria da Graça
Mas, é apenas um detalhe em um sistema de transporte repleto de “preconceitos sociais”. Este caso lembra que não há ônibus da Zona Sul para a Baixada... E também que o maior trecho do Metrô do Rio sem estações fica na Linha 2, entre Triagem e Maria da Graça (mais de 2km), justamente onde encontramos duas das maiores favelas do Rio de Janeiro (Jacarezinho e Manguinhos). 
Ampliando para o conjunto dos municípios do Rio Metropolitano, vemos outras situações, até irônicas, como a interrupção da linha 2 do Metrô, no bairro de Pavuna, a alguns metros da divisa com São João de Meriti...

 
 
Por razões geográficas, a maior fragmentação da metrópole está na transposição da baía de Guanabara, uma considerável limitação física, radicalmente exacerbada pela organização (?) dos nossos transportes. Sobre este espaço os interesses da chamada “república empresarial” deram um dos seus mais lucrativos botes... Um intrincado (mas esperto) jogo de participações empresariais e benesses governamentais permite a um único grupo o domínio das ligações Rio-Niterói através da ponte e das barcas, o mesmo que assume agora o futuro VLT do Centro do Rio.

Enquanto isto, nos últimos anos, numa sucessão de más notícias, várias propostas foram sendo “esquecidas”. Recentemente, o ex-prefeito César Maia reconheceu as razões: “risco ao equilíbrio econômico” de concessionária, “interferência do cartel dos ônibus”...

Entre os principais prejuízos para a mobilidade, a perda (ou adiamento?):

a) do projeto de conclusão da Linha 2, entre Estácio e Carioca, seguido da sua transformação, via Central, em um “linhão”, estendido até a Barra, para maior desconforto do carioca;

b) do túnel submarino do Metrô entreRio e Niterói, proposto para ligar a Linha 2 à futura Linha 3 (Niterói-Itaboraí), com extensão de 5,5 km e custo estimado em cerca de R$ 900 milhões (menos que a reforma do Maracanã), uma conexão fundamental para a integração da Metrópole;

c) da própria construção da Linha 3 do Metrô... Até há pouco tida como certa (inclusive pelo estímulo da ativação do Comperj, em Itaboraí), já há indicações de que será substituída por uma Linha 3 em monotrilho...

O resultado destas decisões (sempre “econômicas”, em vários sentidos) é a cristalizações de novas e antigas fragmentações, com seus dramas populares...

De um lado, o Porto “Maravilha” do Rio de Janeiro (e já se prepara o de Niterói...), que se tornará uma ilha, não necessariamente de excelência... O VLT (um bonde fechado, para dar, de novo, ares europeus ao Rio) será mais útil a passeio do que a trabalho. E, como não há previsão de transporte de massa de qualidade para a área (apenas as velhas linhas de ônibus, nem o BRT...), quem vier de longe (por trem ou metrô) terá mais uma baldeação a fazer. 
É preciso passar uma nova linha de Metrô pelo Porto!... Se não, como alcançar a Gamboa-Maravilha ou a Saúde-Maravilha?... Todos com seu automóvel no engarrafamento e uma vaga de estacionamento reservada?... Para uma área que, até 2020, deve crescer de 22.000 para 100.000 habitantes, com potencial imobiliário de 50 bilhões de reais (embora haja dúvidas), o ideal é que uma nova linha de Metrô a atravesse.

Pça. XV, Rio: problema nas barcas... fila até o Paço Imperial
De outro, a não construção do túnel do metrô entre Rio e Niterói significa a manutenção de um dos mais cruéis gargalos da “mobilidade” na metrópole, além de velhos privilégios econômicos...

A massa de trabalhadores, que todo dia vai e volta de São Gonçalo ao Rio, continuará mudando de ônibus ou monotrilho para barca e de barcas para VLT ou ônibus, num lado ou outro. O custo em dinheiro até pode ser aliviado por cartões de integração, mas a fragmentação das vias continuará provocando dolorosa perda de tempo em suas vidas.
Niterói: movimento intenso no terminal de ônibus


Dinheiro, aqui, mais uma vez, é a chave... Faltando interesse no planejamento de longo prazo, a porta está fechada para a mobilidade, apesar de todo o dinheiro que circulará pela região metropolitana, com o pré-sal etc. 
E predominando  interesses empresariais parciais, com o imprescindível apoio dos governantes, o dinheiro continuará circulando em poucas mãos e mais portas ficarão fechadas para os cariocas...

segunda-feira, 18 de março de 2013

04. Niterói, a exemplo do Rio




Araribóia tem estado na maior escuridão...
De repente, sem mais nem menos, o impacto de uma notícia sobre grandes transformações em Niterói, publicada em coluna social do caderno “de bairro” de O Globo, em 17/03/2013:



Estado cede cinco prédios para Niterói revitalizar o Centro

Os prédios da Cedae, Emop, Detran e Ceasa, perto da Favela do Sabão, e o do Iaserj, avaliados em R$ 150 milhões, vão garantir o fundo de investimento que a prefeitura precisa criar para a parceria público privada com que pretende executar um projeto de revitalização do Centro. Os imóveis estão sendo cedidos a Niterói pelo governador Sérgio Cabral, e o prefeito Rodrigo Neves afirma que, com esses recursos e mais a participação das construtoras Odebrecht, Andrade Gutierrez e OAS, vai promover a requalificação urbana da área mais degradada da cidade. “Nosso objetivo é fazer ali voltar a ser um local de moradia, e não a vergonha que é hoje”, disse ele.
Trânsito e transporte serão priorizados
O projeto que vai ser tocado à semelhança do Porto Maravilha, no Rio, prevê uma nova hidroviária; novo terminal de ônibus e de metrô. A Estação Araribóia vai dar lugar a uma marina. Mergulhões na Marechal Deodoro e nos acessos à ponte vão melhorar o trânsito. As ruas ganharão um novo visual sem fios pendurados em postes. As redes de energia e de telefonia serão subterrâneas.”


É difícil acreditar que estas enormes construtoras estejam interessadas em recuperar, como “um local de moradia” (que não será para a classe A...), o Centro de Niterói. Moradia de gente comum é muito pouco para elas, as mesmas das maiores obras deste país, e sempre a fim de mais. E a “recuperação” do Centro de Niterói certamente vai ser voltada também para a expansão comercial, não apenas residencial.

Prédio residencial-comercial, tipo padrão, no Centro de Niterói
Aliás, como é que estas construtoras já estão neste projeto?... Assim, sem qualquer licitação ou concorrência?... Sem que, ao menos, se saiba detalhes das propostas feitas pelos governantes?... Ou eles estão falando justamente do que elas, as construtoras, pretendem?... 

Mais uma vez (como em praticamente toda a série de projetos que vêm e vão transformando o Rio Metropolitano), vem a público ideia absolutamente pronta, certamente preparada, a contento, por construtoras cujos donos têm fácil acesso aos governantes, com quem até se divertem...

Curioso é que tão grande projeto apareça em pequena nota, em uma coluna social de caderno de bairro, ainda que de um grande jornal carioca... O padrão sugere uma tática de convencimento da opinião pública, a progressiva imposição de fazer com que a população “coma o mingau pelas beiradas”.

Trânsito cada vez mais pesado na baía da Guanabara
A nota é pequena, mas traz estranhezas... Por exemplo, a tal “hidroviária” será, supostamente, a nova estação das barcas, enquanto a atual se transforma em “marina”, dedicada, naturalmente, a outro tipo de público, uma espécie de estacionamento de barcos, como já propuseram na Praça XV, do outro lado. O pior não é o quanto ganham (e o usuário perde) com a mudança de local do embarque... 
Significa, fundamentalmente, a oficialização do aborto da transposição da baía da Guanabara através de um túnel de metrô, projeto já centenário e plenamente viável pelas técnicas atuais. 


Barca Rio-Niterói é apenas parte da viagem...
Nos projetos originais do Metrô para o Rio Metropolitano, consta a ligação (através de túnel sob a baía) da Linha 2 (a ser completada, com o trecho de Estácio à Praça XV, via Carioca) com a Linha 3 (Niterói-Itaboraí, no lugar da antiga ferrovia). Sabemos a quem interessa esta expansão: segundo pesquisas, 40% dos usuários das Barcas Rio-Niterói vêm de São Gonçalo para trabalhar no Rio. 

E a quem não interessa construir o túnel do Metrô sob a baía da Guanabara? Certamente, às empresas de ônibus, aos concessionários das Barcas e da Ponte, aos comerciantes do Centro de Niterói, aos políticos que lhes são próximos, e a quem mais?...

Vivemos numa República Empresarial e nela, depois de capturada a vontade quase indiferente dos eleitores, os que assumem o Estado estabelecem o jogo preparado pelos empresários.

Após a proposta do Estado mínimo, chegamos aos tempos do Estado útil. Neste Estado, tudo é negócio...
Fotos: Guina Araújo Ramos, 2013
Atualizado em 19/03/13.